Servos de Yalanthara - Parte 4
"Apesar do asco que a dominou, Tahya agrediu a aberração com sua cimitarra. Um fiapo de carne esponjosa foi arrancado da criatura, levando junto um diminuto globo ocular que emitia faíscas. Dos esbugalhados olhos centrais de dois outros beholders que a cercavam saíram lampejos esverdeados. A druidisa sentiu os músculos de seu corpo não mais responderem, membros enrijecidos como se transformados em pedra. Outro lampejo esverdeado acertou sua mão esquerda de raspão. Desta vez, a sensação de se transformar em pedra era real: sua mão fora petrificada.
Nan gesticulou com os dedos, enquanto movia o corpo para desviar-se dos raios ópticos desferidos contra ela. Da ponta de seu indicador saiu um relâmpago, que acertou parte da gosmenta carne de um inimigo. A criatura foi atirada metros atrás, ficando atordoada apenas pelo tempo necessário para que Nan tentasse usar o mesmo ataque contra outro beholder sem ter sucesso.
Uma das criaturas flutuou velozmente em direção ao corpo paralisado de Tahya e abriu a bocarra. Da asquerosa abertura surgiram dentes imensos cobertos de algo que parecia ser saliva – mas era melhor não pensar no que realmente era. A aberração mordeu o braço direito da druidisa, fazendo-a soltar imediatamente sua cimitarra. O beholder sacudiu Tahya até o membro ser arrancado. Um horrendo grito de dor pôde ser ouvido. Sangue voou em todas as direções.
Um outro beholder avançou em direção ao outro braço, mas foi detido por uma gigantesca língua. Um sapo colossal, de quase dois metros de altura, surgiu, invocado pelo poder druídico de Tahya. O anfíbio lutou para manter sob controle a aberração, que se debatia e emitia faíscas dos olhos diminutos. Por alguns instantes, ambos mediram forças, até que o beholder se libertou e atingiu o sapo com um fino raio avermelhado. A luz vermelha o circundou e o beholder passou a jogar o corpo do sapo para cima e para baixo, até finalmente arremessá-lo a centenas de metros de distância.
Nan via os inimigos flutuarem ao seu redor, como que a cercando, para tentar surpreendê-la. Os segundos que ela estava tendo foram usados para lançar um brilho translúcido em direção à sua amiga druidisa. O brilho se intensificou e foi se multiplicando, multiplicando também o corpo de Tahya. Agora eram quatro Tahyas.
Com a amiga um pouco menos vulnerável, Nan pôde se concentrar em se esquivar das rajadas ópticas que vinham em sua direção. Uma delas acabou a acertando. A feiticeira halfling sentiu o coração congelar-se de medo dos inimigos. Fez força para sobrepujar o temor e conseguiu, mas, nesse meio tempo, outro raio inimigo a atingiu. O corpo queimou de dor. Nan caiu.
Subitamente, um machado surgiu do nada, rasgando a carne asquerosa de um beholder. Seu dono não tardou a chegar e apanhar novamente sua arma. Antes que a criatura ferida pudesse se recompor, mais golpes furiosos foram abrindo talhos. O golpe final, no globo ocular central, logo veio.
Um dos beholders estava morto.
Hydayn e Dargo logo chegaram também, tirando de Tahya e Nan a atenção dos beholders. A halfling aproveitou para fazer uso da mais ousada estratégia que lhe ocorreu: mesmo caída e sem forças, murmurou palavras que fizeram o tecido da realidade tremer. Uma leve desorientação, um sutil borboletear de estômago e todos os presentes sentiram a magia desaparecer do ambiente. As Tahyas ilusórias sumiram. O campo anti-magia fora ativado.
O beholder que tinha sido atingido por Nan no começo do confronto surpreendeu Murdaryk, mordendo-o de raspão no ombro esquerdo. O bárbaro não teve forças para impulsionar o machado para trás. Sua carne foi sendo perfurada, a dor lancinante foi lhe tirando os sentidos, as forças foram se esvaindo.
- As habilidades mágicas deles foram canceladas – Nan balbuciou – Só resta a eles atacar dessa forma. Tenham cuidado.
A lâmina de Dargo dizimou mais um beholder. Ele correu em direção a seu amigo, mas precisou parar para ajudar Hydayn, que estava cercado pelos outros três. Os ataques desarmados do monge não eram efetivos contra inimigos dessa natureza, além de exigir uma proximidade que poderia expô-lo às investidas inimigas. Enquanto o guerreiro elfo dispersava os oponentes com o giro veloz de seu aço, Hydayn correu para apanhar a cimitarra caída de Tahya. Não era o ideal, mas seria melhor que nada.
Murdaryk estava no chão, o beholder em cima dele, dentes ainda firmemente presos ao ombro. Carne e ossos foram perfurados, rasgados e enfraquecidos pela feroz mordida. Já havia no chão sangue suficiente para formar poças, quando a lâmina de Dargo perfurou a aberração. Com muito esforço, fez a criatura maldita soltar seu amigo, não sem antes levar parte do ombro entre seus dentes. O bárbaro não resistiu e desmaiou. Dargo assassinou a abominação.
Tahya e Murdaryk estavam desacordados, a força da dor havia lhes tirado a consciência. Nan tinha aberto mão do direito de usar sua magia para que os inimigos também não pudessem fazê-lo. Restavam apenas Hydayn e Dargo.
Contra três beholders.
***
As três criaturas entenderam que o único recurso de seus inimigos era o ataque com as espadas. Por isso, levitaram até uma altura em que não poderiam ser golpeados. E aguardaram a magia voltar.
Hydayn e Dargo aproveitaram para tentar acudir seus colegas feridos. Nan já estava se recompondo, era a menos ferida. Tahya sangrava em profusão, o braço direito decepado, a mão esquerda petrificada. Murdaryk sem parte do ombro esquerdo, toda a região ao redor do ferimento inchada. Hydayn tinha trazido consigo poções mágicas com poderes de cura. Elas ajudariam a minimizar os danos após o confronto.
Supondo que vencessem.
Um frio percorreu as espinhas, as mentes ficaram turvas e tudo pareceu balançar por uma fração de segundo. A magia do ambiente estava voltando. Nan, com dificuldade, se colocava de pé novamente. Já movia as mãos em gestos deliberados, já pronunciava sílabas desconexas. Já se via luz surgindo ao redor de seus dedos.
Antes que os beholders disparassem seus raios ópticos, a halfling disparou duas imensas bolas de fogo. As aberrações conseguiram desviar do ataque arcano, mas chocaram-se umas contra as outras. Nan repetiu a estratégia e novamente as criaturas se bateram. A feiticeira resfolegou, energias quase que exauridas. Dargo e Hydayn observaram, atônitos, os três beholders começarem a brigar entre si.
- Vamos cuidar dos ferimentos de nossos amigos – Nan disse, em meio a suspiros de cansaço.
Hydayn apressou-se a sacudir Murdaryk e colocar na boca dele gotas do líquido roxo. Poucos instantes bastaram para que o bárbaro tivesse as dores reduzidas e parte dos ferimentos cicatrizados. Dargo repetiu o processo com Tahya e aconteceu o mesmo. Minutos depois, todos viram um beholder morto e outros dois moribundos, agredindo-se furiosamente.
Quando restou apenas um, a lâmina de Dargo e a cimitarra emprestada de Hydayn trataram de encerrar o confronto. Com muita dificuldade, os cinco venceram os primeiros guardiões.
Restava apenas derrubar a torre. E rezar aos deuses para que os próximos inimigos não fossem tão poderosos."
Continua...
Pelas minhas barbas!!!! Felizmente as crianças não estavam em meus Salões quando li esta parte da saga...
ResponderExcluirMuito bom, nobre Jaco!
E se tiveres outro conto curto que queiras registrar nos Salões de Valhalla, basta enviar a meus corvos.
Malditos beholders! Por Corellon, que batalha sangrenta... espero que Tahya e Murdaryk fiquem bem!
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