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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Servos de Yalanthara - FINAL

Pois é, amigos... Como diz aquela linda música do Guns 'n Roses "nada dura para sempre, nem mesmo a chuva frio de novembro". Por isso, trago-lhes o fim da saga "Servos de Yalanthara". Mais do que isso, hoje começo a contagem regressiva para as comemorações de dois anos do blog. Para as próximas postagens teremos novidades. E mais sagas.

Espero que apreciem e comentem. (Por ser a parte final, a postagem de hoje tem o dobro do tamanho de uma postagem normal. Espero que mesmo assim apreciem e comentem =])

Servos de Yalanthara - FINAL

"Haardad e Macarus mediam forças, sobrancelhas franzidas, olhos fechados pelo suor que escorria pela testa e incomodava as pálpebras. Braços trêmulos, mãos claudicantes e mentes arcanas concentravam-se em expulsar em forma de energia toda a magia que conseguiam canalizar.
Os poderes mágicos se chocavam em um equilíbrio mantido a muito custo. No ponto onde a energias se tocavam, brilhos arcanos de coloração púrpura faiscavam ferozmente. Ao redor dos conjuradores, um espetáculo de luz e sombras, como se o reflexo de suas capacidades se materializassem. Ou como um sinal de que aquela era a batalha definitiva entre o bem e o mal.
Os horizontes, outrora cinzentos, agora eram uma miríade de luzes sobrenaturais, rútilos indecifráveis e relâmpagos repentinos. Nuvens negras e brancas se fundiam, se cruzavam e competiam por espaço sob a imagem impressionante de dois céus mesclando-se um ao outro.
Dia e noite mediam forças, luz e trevas dançavam irrequietas, uma tentando sobrepujar a outra. A terra começou a se abalar sob os pés dos presentes. Vento cálido e suave trazia o aroma primaveril e o cheiro de maçãs, pomares e de castores com suas nozes. Rajadas de um ar impuro traziam miasma de enxofre e sangue ferroso.

Os corpos suavam pelo calor e tremiam pelo frio. Dois magos estavam combatendo. Dois mundos estavam se unindo.

As dimensões se tornavam uma e Ayara, por um instante, teve a impressão de estar vendo tudo de cabeça para baixo. Ficou alguns segundos completamente surda, para em seguida ouvir mais sons do que supôs existir. Era a nova Rainha, mas não sabia o que fazer.
Durud e Dargo, mancando e sangrando, aproveitar-se-iam da extrema concentração de Macarus para surpreendê-lo. O mundo deles parecia condenado, dois de seus amigos jaziam sob poças de sangue e o sacrifício da Rainha Yalanthara parecia ter sido em vão. Restava a eles apenas a satisfação mórbida da vingança. O culpado por tudo aquilo teria que ser punido. A qualquer custo.
Macarus e Haardad seguiam no confronto impiedoso. O chão sob seus pés umedecidos, com poças chegando até a altura dos tornozelos. Eram feitas do sangue, e a ele se juntavam o suor do esforço sobre-humano, e a eles somavam-se também a urina que escorria farta pelas virilhas. Os dois tinham perdido totalmente o controle. Seus corpos pareciam ter se tornado meros receptáculos de um gigantesco poder arcano.
A lâmina de Dargo avançou em direção a Macarus. Nela, centenas de desejos de justiça e vingança. Uma sede de sangue justificada. Mas que o destino não permitiu que fosse saciada.
A aura negra que pululava insana ao redor do corpo do mago se expandiu subitamente. O toque faiscante da energia maligna agrediu armadura, carne e ossos. O aço da espada não encontrou seu alvo. Dargo caiu, largando sua arma. Sua consciência, prestes a abandoná-lo.

“Yanysha! Não posso morrer!”

***

A desconcentração de Macarus custou-lhe o equilíbrio no combate. Haardad lançava sua energia arcana com fúria, veias do pescoço e da testa saltadas, como se sua cabeça estivesse prestes a explodir. A metros de onde estava, ele viu algo que pareceu fazer lhe surgir um sorriso.
Com uma furtividade capaz de surpreender o mais aguçado dos sentidos, Durud surgiu pela retaguarda de Macarus, adaga em punho. Iria estocar a nuca do mago. A lâmina de prata percorreu sua trajetória clamando por sangue.
Macarus percebeu o ataque. E seria golpeado. Na fração de segundos que separou os dois momentos, o mago lançou mão de seu último trunfo.
Seu corpo transmutou-se em uma massa pestilenta de vermes, que se amontoavam uns sobre os outros, dando à aglomeração um formato humanóide. A adaga atravessou o corpo diminuto de dois vermes e prendeu-se no meio das milhares de repugnantes criaturas. Durud prontamente tirou a mão dali antes que as mordidas de que estava sendo alvo se multiplicassem.
A energia arcana que Macarus liberava desapareceu, fazendo a de Haardad vir velozmente na direção dele. Centenas de vermes foram dizimados e outros milhares se subdividiram em pedaços microscópicos.
Apesar disso, a aura maligna ainda permeava o ambiente. Ficava claro que a batalha não tinha sido vencida.

***

Dargo sonhava acordado. A tênue linha que separava o onírico do real estava embaralhada, a cabeça latejava e os pensamentos estavam cada vez mais confusos. Teve a impressão de que seus sentidos o abandonariam quando uma voz conhecida e saudosa ecoou em sua mente. Dargo agradeceu a todos os deuses por ainda ter audição.

- Vai deixar a morte de nossa Rainha impune?

Era Murdaryk. Uma alucinação, uma visão fantasmagórica, um pesadelo, ou talvez todas essas coisas, ou quem sabe nenhuma delas. Dargo podia ver claramente seu amigo bárbaro, ainda com os ferimentos recentes da última batalha.

- Vai deixar a minha morte e a de Hydayn terem sido em vão?
- Murdaryk... Eu sinto muito!

E a miragem desapareceu no meio de brumas sombrias que iam e vinham. Uma nova forma foi ganhando contornos humanos, até que Dargo conseguiu identificar o inconfundível semblante de seriedade, o olhar sisudo e a postura concentrada. Era Hydayn.

- Você não pode morrer, Dargo! Pense em Yanysha. Ela já sofre com a morte recente do pai dela. Como ela se sentirá se também perder você?

Uma lágrima tímida escorreu. Dargo tentou levantar-se. Seus joelhos tremiam sem controle e ao erguer a cabeça ele entendeu por que. Diante dele, ilusão ou não, estava ninguém menos que a Rainha Yalanthara.
E o guerreiro chorou. Chorou como uma criança que reencontra os pais após anos de distância, chorou até soluçar e continuou chorando até perder as forças. Quando recobrou as forças, ainda chorando e chorando, conseguiu dizer aquilo que rezou a todos os deuses para ter uma chance de dizer.

- Perdão, minha Rainha! Não fui capaz de te proteger. Perdão! Agora morrerei, Majestade, para me redimir de minha falha.

Dargo criou coragem e tornou a levantar o olhar. A monarca sacudia a cabeça em negativa, exibindo nos lábios um sorriso terno e acalentador.

- Ele não pode ser vencido, Majestade. O que faço? O que devo fazer?

A Rainha Yalanthara apenas balançava a cabeça horizontalmente.

- Não há mais nada que possa ser feito. Não há!

E ao redor da Rainha, surgiram as imagens entristecidas de Murdaryk e Hydayn.

- Diga-me alguma coisa, Majestade. Digam-me alguma coisa, meus amigos. Preciso ouvir alguma coisa.

Ilusão ou não, sonho ou realidade, não importava. Dargo não teve nenhuma dúvida do quão reais tinham sido as três vozes que ecoaram em uníssono.

- Nós acreditamos em você!

***

Durud estava distante de Macarus. O agora amontoado de vermes ainda exalava fedor de morte e maldade. As centenas de milhares de criaturas repulsivas que agora eram seu corpo foram se agrupando, tomando forma. A forma verdadeira do terrível mago.
Os seres viraram patas, carapaça, cabeça e antenas. Um longo corpanzil foi criado com a junção de incontáveis criaturas. Macarus tomou a forma de um gigantesco verme. Sua faiscante aura ganhou o aspecto de sombra, como se ele fosse um receptáculo de toda a podridão e maldade daquela dimensão.
O verme gigante moveu-se com velocidade incrível em direção a Haardad e o surpreendeu. Ele ainda recuperava o fôlego do esforço do ataque anterior e não foi capaz de se defender a tempo. Dezenas de milhares de criaturinhas perfuraram seu corpo. Larvas corroeram suas estranhas e o que restou de carne foi corroído por um líquido amarronzado que escorria da boca daquilo em que se transformara Macarus.
Dargo e Durud mantinham-se de pé, vendo com tristeza suas esperanças desaparecerem. Olharam para longe e viram Tahya e Nan, imóveis chorando sobre o corpo dos amigos. Parecia inevitável que tivessem o mesmo fim, mas os deuses pareciam ter outros planos.

- Chega de mortes! – gritou a única voz feminina das proximidades – Chega!

Era a Rainha Ayara. Sua ira despertou uma força misteriosa que carregava dentro de si. Uma luz cegante foi crescendo ao redor do corpo dela. Ela espalmou as mãos para frente e disparou um cone de energia. O ataque atingiu em cheio Macarus, que foi desintegrado instantaneamente, tendo tempo apenas para maldizer seu destino. No momento do golpe, Dargo teve a nítida impressão de ter visto o rosto de Yalanthara no lugar do de Ayara.

***

Macarus estava morto, a fusão dos dois mundos parecia estar sendo revertida e o poder oculto da Rainha Ayara abriu até um portal para o mundo deles. Bastava regressar.

- Tahya! Nan! Venham! Vencemos! – bradou Dargo.
- Tragam os corpos de Hydayn e Murdaryk.

De longe, ambas fizeram com a cabeça que não. Os dois amigos se aproximaram e repetiram as palavras, porém a resposta obtida foi a mesma. A fusão entre os mundos estava sendo revertida, mas com a morte de Macarus, aquele mundo estava condenado. Não tinham muito tempo para sair dele.

- Os corpos deles têm que ser trazidos. Eles merecem um funeral decente! – Durud alegou.

Dargo olhou profundamente nos olhares lacrimosos das amigas e desistiu. Entendeu o desejo delas. Seu coração estava anestesiado. Uma tristeza a mais, outra a menos não faria tanta diferença.

- Elas querem ficar aqui para morrerem junto com eles – o guerreiro explicou a Durud.

O ladino não entendeu, contra-argumentou e se propôs a ficar junto delas e compartilhar daquele mesmo destino cruel. Não pôde.

- Venha, Durud! É uma ordem de sua Rainha! – a monarca bradou.

A Rainha Ayara, Durud e Dargo voltaram para casa.

***

Emoções conflitantes. O povo do reino precisou achar em seu coração espaço para a alegria da vitória e para a tristeza do alto preço pago em vidas por ela. Muito silêncio e lágrimas furtivas, pouca comemoração. A tentativa de fusão entre os mundos causou distúrbios naturais e algumas cidades atingidas por maremotos tiveram que ser reconstruídas. Mas no mesmo dia do retorno, algo mais digno de nota aconteceu.

- Yanysha, meu amor. Vencemos – era Dargo, ainda chorando.
- Fico feliz por você – ela sentia-se mal de ter que dar a ele uma notícia tão ruim naquele momento.
- Como você está? Sentiu minha falta? – ele tentou descontrair o ambiente.
- Dargo, é justamente sobre isso que eu gostaria de conversar. Preciso que você me perdoe por lhe dar uma notícia tão desagradável quando você mais precisa de boas notícias, mas...
- O que aconteceu? Você está me deixando preocupado!
- Dargo, eu quero me separar de você.

Os dois se entreolharam longamente. Os primeiros a derramarem lágrimas foram os de Dargo. Yanysha tentou cumprir a promessa que fizera a sua mãe de não chorar, mas não conseguiu. Ela chorava, não por tristeza. Mas por sentir pena daquele a quem um dia amou.

Os dois continuaram a apenas se olhar por longos minutos, enquanto as lágrimas passeavam em seus rostos entristecidos. Dargo tentou procurar contra-argumentos para dissuadir sua amada daquela idéia, pensou em se ajoelhar e implorar. Pensou que, talvez, tivesse sido melhor ter morrido no lugar de Hydayn ou de Murdaryk.
O choro de Yanysha se intensificou e ela teve que desviar o olhar. Virou-se de costas e saiu, para não mais voltar.

***

Durante os meses seguintes, Dargo limitou-se a passar a quase totalidade de seu tempo rezando na capela erguida em homenagem à Rainha Yalanthara. A convivência constante de Durud e Ayara acabou fazendo com que ambos se casassem. O outrora ladino pessimista e falastrão tornara-se Rei.
Murdaryk, Hydayn, Tahya e Nan encontraram o descanso eterno no reino dos deuses e, espera-se, passaram uma eternidade de alegria ao lado de sua antiga monarca.
Os quatro não tiveram chance de servir a recém-coroada Ayara. Dargo não compareceu ao casamento dos monarcas e acabou nem mesmo prestando uma única reverência a ela. Durud deixou de ser súdito para ser cônjuge.
O destino não permitiu que nenhum dos seis, Murdaryk, Tahya, Hydayn, Nan, Dargo e Durud, se ajoelhassem diante da Rainha Ayara.

Pois eles eram e para sempre seriam apenas e tão somente Servos de Yalanthara!'

Essa não continua mais...

2 comentários:

  1. Excelente conclusão.... hei de sentir falta desta saga. Acho que a lerei inteira desde a primeira parte em breve.

    E aproveito para pedir que me envie também teus manuscritos sobre tua nova história, grande Jaco!

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  2. Nossa, que lindo. Não tenho outras palavras para descrever esse final. Fiquei com lágrimas nos olhos. Parabéns, nobre Jaco!

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