Com um atraso que não pretendo repetir, lhes trago a última parte de "A queda dos Feiticeiros". Para compensar a demora em publicar o final, a postagem de hoje é um pouco mais extensa que o normal.
Espero que apreciem e comentem.
A queda dos Feiticeiros - FINAL
"Ezamyr rezava para Moreito. Pedia justiça, força e sabedoria. Coragem, resignação e esperança. Recitava palavras decoradas e as intercalava com súplicas vindas de seu coração. Ao fundo, o som dos familiares do barão chorando pela destruição de parte significativa da propriedade. Mesmo a quilômetros de distância, era possível sentir também a dor antecipada das famílias envenenadas pelas Sementes do Inferno Negro. Por eles, por si mesmo e por seus colegas batalha, Ezamyr orava com fervor.
Yana e Maross estavam em um canto do grande casarão do barão, aceitando ofertas de alimentos e recusando o vinho que lhes chegava. A intenção deles era sair daquele ambiente de tristeza o quanto antes. Queriam agir, batalhar, encontrar os culpados por tudo aquilo, destroçar seus corpos e encaminhar aos deuses as suas almas. Ali, parados, em meio ao clima de desolação e luto, sentiam-se inúteis.
Gollean havia orientado todos a aguardarem, pois uma mensagem tinha sido enviada à coroa de Yanzakar. Antes de definirem qualquer coisa, esperariam um posicionamento de Sua Majestade. Até onde se sabia, ela estava reunida em conselho.
- A Rainha sabe da urgência da situação. Não tardará a nos dizer o que fazer – ele dizia frequentemente, tentando conter a impaciência dos colegas.
- Onde está Garvyn? – perguntou Ezamyr, após orar até os joelhos arderem.
- Ele está em outro lugar, não muito distante daqui. Ele vai desempenhar um papel importantíssimo nessa batalha.
A propriedade era extensa e havia além dos mais distantes celeiros que armazenavam as colheitas uma pequena colina. Ainda fazia parte das terras do barão, mas poucas pessoas iam até lá, simplesmente por não haver nada lá para de fazer. Daquela elevação era possível ver parte significativa da cidade e até um pouco mais que isso. Muitas estradas por onde passavam os alimentos comercializados ficavam visíveis daquele ponto. No entanto, o motivo de Garvyn estar ali era outro.
Os olhos mantinham-se fechados e um vento moderadamente forte soprava, desalinhando seus cabelos e fazendo mais que isso. A brisa tinha algo de sobrenatural. O mago sentia a energia arcana ser trazida e levada pelas correntes de ar com suavidade, e tentava captar sua origem. Durante a batalha contra Ortoroth e Baalok, Garvyn havia sentido um padrão mágico bastante específico. Um padrão que ele poderia identificar, se houvessem outros similares nas proximidades.
Ele já estava lá havia pelo menos uma hora. Liberando sua energia e pedindo em troca a do ambiente. Sentindo as vibrações arcanas e tentando localizar onde poderia haver mais criaturas com aquele padrão. Tentando localizar onde se escondiam os outros Feiticeiros do Inferno Negro. Em dado momento, seus olhos se abriram. Um raro sorriso brotou em seu rosto sisudo. O vento soprou com menos intensidade.
Ele havia descoberto.
***
O grupo que chegou era impressionante. Ao menos trezentos indivíduos trajando armaduras prateadas de aço esmaltado, empunhando espadas bastardas e usando os imponentes elmos de duas cabeças – uma das mais tradicionais peças de guerra do reino. A esses guerreiros da coroa, somavam-se uma multidão de aventureiros que haviam sido convocados às pressas.
A Rainha Wendy anunciara que Yanzakar declarava guerra à Ordem dos Feiticeiros do Inferno Negro e conclamava todos os guerreiros, paladinos, feiticeiros, ladinos, monges e pessoas de bem capazes de lutar a unirem-se na investida maciça que estava sendo organizada. Bardos, viajantes e dezenas de pessoas comprometidas com a paz se encarregaram de espalhar a notícia. Em poucas horas, já havia sob as impressionantes muralhas do castelo real um contingente assombroso de valentes indivíduos dispostos a acabar com aquela vil ameaça.
Eram aventureiros de todos os tipos: feiticeiros de vestes rasgadas e tatuagens místicas colorindo seus corpos seminus; magos ocultos por andrajos esfarrapados e se apoiando com a ajuda de cajados encimados por cristais que rutilavam sem cessar; paladinos exibindo seus símbolos sagrados sobre seus corcéis brancos; cavaleiros errantes munidos apenas de coragem e armas comuns. Monges de cabeça raspada e olhos de cores diferentes; mercenários de armaduras gastas e olhares interesseiros; escudeiros jovens, ansiosos por glória; guerreiros humildes protegidos por modestas cotas de malha. Sacerdotes de Moreito, o deus da justiça, e de Sandy, a deusa da bondade. Não havia limites para a variedade de indivíduos, nem distinção entre eles. Ali, naquele momento, o mais humilde camponês armado com uma adaga enferrujada tinha tanto valor quanto o mais graduado capitão da guarda da Rainha Wendy.
O barão, Ezamyr e os demais recepcionaram Sua Majestade com a devida reverência, mas não houve tempo para muitas formalidades. Todas as informações disponíveis foram compartilhadas. Não tardou para que Garvyn chegasse apressado, com o semblante sisudo ainda mais sério, provavelmente abalado por alguma notícia ruim.
- Eles estão em movimento. Devem ter percebido que os localizei e agora estão fugindo.
- Nesse caso, vocês devem partir no encalço deles imediatamente! – a Rainha respondeu.
Maross ficou tentado a perguntar para a monarca o que aconteceria com as pessoas já contaminadas com a Semente do Inferno Negro, mas achou melhor deixar aquilo para depois. O barão desejou sorte ao grupo, os clérigos presentes fizeram curtas preces às suas divindades e todos partiram, tão organizados quanto puderam.
- Boa sorte, meus guerreiros! – a Rainha pensava em voz alta – E que os deuses me perdoem pela decisão que tomei!
***
Um deles tinha aparência de demônio. Faces iguais às dele certamente já povoaram pesadelos infantis em noites de tempestade ou tiraram o sono de jovens em madrugadas de lua cheia. O rosto era uma grossa camada de pele avermelhada repleta de rusgas e protuberâncias desencontradas. A língua salivava um líquido vermelho viscoso, a testa era adornada por dois chifres e o que preenchia os globos oculares eram apenas malévolas luzes rubras bruxuleando sem parar. O monstro tinha uma cauda grossa, músculos desproporcionais, patas com três dedos e braços que terminavam em garras tão afiadas quanto lâminas de aço. Seu nome era Crograrr, e ele fora o primeiro Feiticeiro a ser interceptado pelas forças do reino.
Suas garras rasgaram o aço das armaduras como se fosse papel, mas os ataques seguintes foram interceptados por habilidosos guerreiros. Armas apararam garras com maestria, enquanto mais e mais lutadores se aglomeravam tentando atingí-lo. Três tombaram, feridos pela movimentação feroz e inesperada de sua cauda. Um sacerdote gritou pela glória de seu deus, mas isso não enfraqueceu o Feiticeiro. Dois magos arremessaram finos raios de coloração esmeralda, visando enfraquecer o inimigo, mas um brilho repentino do corpo do monstro mostrou que a criatura não seria ferida por truques tão simples.
Aço e garras se encontraram várias e várias vezes sem que um deles levasse qualquer vantagem aparente. Guerreiros recuaram, possibilitando que conjuradores arcanos atacassem com magias mais agressivas. Fogo e gelo elementais foram disparados, ácido foi arremessado e energia positiva também foi lançada. Uma explosão se seguiu, e quando a poeira baixou, a criatura sangrava. Pouco.
Os olhos vermelhos foram se enrubescendo mais e mais, até o ponto que a luz rubra partiu em direção aos inimigos na forma de um poderoso raio. Quatro guerreiros e um mago caíram sem vida.
- Não pensem que sou tão fraco quanto Ortoroth ou Baalok.
Três magos desenhavam um círculo místico no chão. Usando restos de sangue e um estranho pó amarelado que traziam consigo, foram rabiscando uma estrela de nove pontas. Em seu interior, desenhos que obedeciam a padrões intrincados. Riscavam, apagavam e refaziam várias vezes o círculo e seu conteúdo interior, até sentirem que estava perfeito. Enquanto isso, a espada sagrada de um paladino rasgou o couro apodrecido que circundava a carne profana do Feiticeiro e fez a criatura urrar.
Os magos gritaram, gritaram e gritaram mais, até o círculo místico brilhar e tornar-se uma redoma de fogo. Os gritos seguintes foram para que todos se afastassem, e as chamas arcanas engolfaram Crograrr e tentaram consumi-lo. A criatura lutou contra as labaredas. Seus olhos brilharam com mais intensidade, em uma clara demonstração de que estava usando magia. O fogo foi se apagando aos poucos, enquanto o Feiticeiro arfava e resfolegava, enfraquecido e vulnerável.
Espadas choveram sobre seu corpo, rasgando, perfurando e agredindo. Sangue jorrou por todos os lados e seu último grito quase ensurdeceu seus assassinos. O corpo sem vida foi se desmaterializando, mas não houve comemoração. Não muito adiante, outros três Feiticeiros lutavam ferozmente contra mais guerreiros e magos.
***
Erith e Muldohr combinavam suas habilidades sobrenaturais, como se acostumados a lutarem juntos. Um entrava em combate corporal, enquanto o outro dava suporte emitindo cusparadas amaldiçoadas, que transformava oponentes em pedra. O primeiro usava a habilidade arcana de enrijecer os músculos inimigos, enquanto o segundo rasgava com suas garras os corpos parcialmente paralisados.
Defendiam-se da mesma forma. Globos de proteção mágica de Erith os circundavam e protegiam dos conjuradores inimigos, ao mesmo tempo em que ataques com espada eram bloqueados e revidados pelas garras e pela cauda de Muldohr. Yana e Maross estavam entre os que os atacavam sem trégua, sem estratégia, sem medir as conseqüências.
Ezamyr e tantos outros combatiam o último Feiticeiro: Raymaron. As preces e os gritos de “Pela justiça! Por Moreito!” não intimidavam o inimigo. Muitos paladinos imbuíam suas lâminas com energia positiva, tornando seus ataques mais efetivos. O maldito Feiticeiro parecia ser vulnerável à força dos deuses, mas atingí-lo era muito difícil. Suas habilidades de combate eram impressionantes.
Próximos dali, Maross e Gollean atacavam em uníssono, acompanhados pelas espadas sedentas de sangue de incontáveis outros. Faiscantes relâmpagos também voavam em direção aos Feiticeiros, mas não pareciam estar sendo bem-sucedidos. Já havia guerreiros mortos o bastante para uma eternidade de luto e outros tantos iam caindo sem que Erith e Muldohr fossem sequer feridos.
Até que chegou Garvyn.
Sua presença intimidadora foi o bastante para que os demais defensores do reino se afastassem. Todos deram passos para trás, até posicionarem-se de forma a deixar o mago frente a frente com os temíveis Feiticeiros. Os desgraçados sorriam e pareciam planejar algum tipo de ataque. Contra eles, uma poderosa ofensiva também estava sendo preparada.
Garvyn esticou o braço esquerdo, a palma da mão voltada para cima. Sobre ela, uma pequena bola de energia translúcida foi surgindo. À medida que o mago franzia as sobrancelhas, a energia ia faiscando, crescendo e tornando-se negra. Todos olhavam embasbacados o poder mágico aumentar a ponto de não caber mais na mão de Garvyn. Quando a bola de energia arcana tornou-se do tamanho de uma rocha, ela avançou velozmente em direção a Erith e Muldohr, sem lhes permitir esquiva ou defesa.
Uma gigantesca explosão arremessou muitos corpos ao chão e poeira subiu e dominou o ambiente por longos minutos. Quando foi possível enxergar novamente, não havia mais Feiticeiros. Apenas manchas negras e sinais de fogo recém-apagado no chão. Os demais conjuradores do grupo sentiam que a aura maligna dos Feiticeiros havia desaparecido para sempre.
Todos voltaram sua atenção para a batalha contra o último Feiticeiro, mas, para a alegria de muitos (e tristeza de uns poucos), ela já tinha acabado. Raymaron fora derrotado pelo ataque conjunto de vários paladinos – e de Ezamyr também. Antes de se considerarem realmente vitoriosos, os magos presentes procuraram emanações mágicas semelhantes às dos Feiticeiros do Inferno Negro e nada encontraram.
O reino de Yanzakar havia vencido.
***
Houve júbilo quando o grupo regressou até a presença da Rainha. A comemoração foi tímida, pois muitas vidas haviam sido perdidas. Sua Majestade, que tinha sido evasiva cada vez que alguém lhe perguntava sobre o aconteceria com as pessoas contaminadas, precisou revelar que aquelas vidas inocentes tiveram que ser sacrificadas. Com lágrimas nos olhos, a monarca relatou que não poderia permitir que um mal tão terrível voltasse a assolar Yanzakar. Disse que se sentiria eternamente culpada e que tinha consciência de que os deuses não a perdoariam.
Ninguém questionou a decisão de Sua Majestade abertamente, mas a pressa com que muitos guerreiros fiéis saíram de sua presença discretamente sem se despedir mostrava claramente a insatisfação da maioria esmagadora dos presentes.
Ezamyr, Maross e Yana eram alguns deles. Ezamyr orou a Moreito, suplicando por força para impedir que tragédias como aquela voltassem a ocorrer. Pediu que recebesse com alegria aquelas almas. Yana chorou por alguns dias pela morte daquelas pessoas. Não as conhecia, mas isso não bastou para que se sentisse indiferente àquela desgraça. Até mesmo Maross, com seu coração empedernido, mostrou-se solidário à tristeza de sua irmã e a consolou vez por outra.
E assim, os três seguiram com sua jornada por Adalahar, cientes de que ainda havia muito a ser feito antes que lágrimas como aquela parassem de ser derrubadas."
Essa não continua mais...
Simplesmente excelente!!
ResponderExcluirE este final parece até mesmo o prólogo de uma nova saga para os três heróis...
Sim, sim, também achei isso... Ainda veremos Ezamyr, Maross e Yana?
ResponderExcluirUm belo final, embora tenha ficado com dó da pobre rainha pela decisão horrenda que teve de tomar...
Sim, nobres amigos vocês os verão em breve.
Excluir