Espero que apreciem e comentem
A Revolta dos Gênios - Parte 2
"A Morada da Magia era o que os acadêmicos do mundo material costumavam chamar de um “semiplano”. Uma dimensão à parte, um mundo específico, limitado, restrito por grossas camadas das membranas espirituais que separavam os múltiplos planos da existência.
Sua origem era desconhecida, bem como a da maioria dos outros mundos existentes. Ninguém sabia se era uma criação dos deuses, de apenas algum deles, ou se sempre existira, sendo resultante do acúmulo das energias presentes em todo o universo. Também não se sabia exatamente há quanto tempo existia, nem qual sua extensão. Poderia ter milhares de anos-luz de leste a oeste, como poderia ser diminuto de norte a sul. Não havia como ter certeza.
O pouco que se sabia, e ainda assim aquilo era motivo de constante controvérsia, era que a Morada da Magia era o lar de incontáveis criaturas consideradas mágicas – sendo este o motivo de ter recebido esse nome dos acadêmicos de Adalahar. Uns acreditavam que a quantidade absurda de energia arcana naquele semiplano era o motivo da existência daqueles seres, enquanto outros achavam que aquela era uma conseqüência de o mundo estar infestado de raças impregnadas por magia.
Quanto à variedade de seres, a Morada da Magia superava até mesmo as mais ricas faunas dos bosques e florestas de toda a Adalahar. Unicórnios com três chifres, corujas feitas de sombra, dragões diminutos com mais de um par de asas, fadas gigantescas, cujo tamanho excedia as centenas de quilômetros, sereias voadoras, lobos sobre dois pés, empunhando espadas eram apenas alguns dos mais exóticos exemplos do que podia ser encontrado lá.
Não havia guerras, nem disputas por poder. Em verdade, não havia lideranças, muito menos motivo para a existência delas. A mentalidade daquelas criaturas era totalmente anárquica, todos eles sendo incapazes de compreender o conceito de autoridade e obediência. Exceto uma raça.
Os gênios.
Por incontáveis eras (ou por todo o tempo de existência que aquele semiplano realmente tinha) não houve problemas, nem nada que ameaçasse a paz arcana e caótica da Morada da Magia. Os gênios tinham uma natureza mais instável que as demais criaturas que lá habitavam, mas isso nunca provocou nenhum tipo de turbulência na ordem natural das coisas.
Entretanto, acontecimentos misteriosos, cujas causas e conseqüências iam além da compreensão dos simples mortais, começaram a provocar terríveis perturbações nas membranas que separavam os mundos. Aquilo, se continuasse, geraria um desastre de proporções cósmicas que refletiria no plano material.
Em Adalahar.
Estava ao alcance dos gênios – e apenas deles – impedir que aquilo se transformasse em uma tragédia. E era exatamente isso o que estava sendo discutido naquele momento.
- Adiantará alguma coisa haver caos em uma pequena parcela daquele mundo? Se a intenção é a destruição ou a conquista do local, não seria mais fácil uma ação em larga escala? Uma invasão? Uma guerra?
- Certas coisas estão além de nosso poder de decisão. Lembre-se que os arquigênios, louvados sejam, são desprovidos do livre-arbítrio. Não podem simplesmente tomar providências que resultassem no fim de um plano da existência.
- Mas a eles ainda cabe o direito de se omitir. Eles só precisariam agir em defesa do mundo ameaçado se estivessem presos à servidão por algum mortal que lhes ordenasse isso. Como não é o caso, eles simplesmente farão aquilo que melhor fazem: observar tudo de longe, e aguardar que as coisas sigam seu curso natural. O que questiono é se isso será o suficiente.
- Não há como termos certeza. Há, no entanto, o problema de que talvez essa crise não esteja condenando apenas o mundo material, mas também o nosso.
- O nosso?
- Os mundos parecem estar se amalgamando. A quantidade absurda de energia arcana pode condenar o mundo material, mas uma excessiva “ausência de magia” nos condenaria também. E se isso acontecesse, os arquigênios também não poderiam interferir.
- O que nos resta então?
- Fazer o que melhor sabemos fazer quando não estamos a serviço de um amo: observar, e aguardar que as coisas aconteçam como devem acontecer.
***
Maross vomitou até ficar pálido. Ezamyr, por alguns minutos, viu tudo de cabeça para baixo. Yana não conseguiu enxergar por algum tempo, recuperando a visão apenas após Dyrdosh tentar várias vezes curá-la com magia. Já as tentativas de usar energia arcana para limpar a sujeira provocada por Maross falharam tanto, que o mago desistiu.
- Por que disse que morreríamos? Afinal, o que aconteceu aqui? – Ezamyr perguntou, vendo três “Dyrdoshs” em sua frente.
- Quando eu disse que iríamos morrer, não me referia apenas a nós três. Quis dizer que nosso mundo... Está condenado. Nosso mundo morrerá.
Yana já enxergava. Seu corpo começou a ficar mais e mais quente. A garota suava além do normal, além do controle, além do que achou que poderia suportar. Maross tentou segurá-la para lhe perguntar o que estava havendo, mas se desequilibrou e caiu. Ao lado de Ezamyr, abriu-se um tipo vórtice, um portal dimensional. O sacerdote colocou o braço ali, e não mais o sentiu, nem conseguiu ver para onde ele tinha ido. Ao puxá-lo, ele voltou normalmente.
- Alguma coisa aconteceu na Morada da Magia. Alguma coisa...
- Alguma coisa? – Ezamyr perguntou, tendo a impressão de estar vendo tudo da cor azul.
- Alguma coisa está tragando a Morada da Magia para nosso mundo. Alguma coisa...
Dyrdosh desmaiou. Yana começou a vomitar, e acabou cuspindo fogo também. Maross teve alucinações, Ezamyr perdeu a memória por alguns instantes. Todos ouviram trovões. Nevou por alguns minutos. Em seguida, a cabana desabou sobre eles. O mal-estar misterioso foi diminuindo. A cada minuto algo sobrenatural acometia um deles. Até mesmo manter uma conversa era difícil.
- O que podemos fazer? – Ezamyr disse, não tendo certeza se havia se expressado no idioma correto.
- Por hora, apenas sobreviver. Pode parecer fácil, mas não será. Se conseguirmos... Se conseguirmos... Honestamente, não sei o que fazer.
Uma explosão imensa foi ouvida. Yana gritava, mas em meio àquela loucura, nada mais surpreendia. Foi preciso que ela continuasse gritando por longos minutos para que todos olhassem para ela e vissem.
Uma estranha entidade extraplanar estava tentando estabelecer contato."
Continua...
Que situação! E que curiosidade para saber o que vai acontecer! Aliás, muito criativos esses efeitos colaterais da desestruturação do plano da magia, nobre Jaco!
ResponderExcluirEu sempre penso em tranformar as aventuras da minha mesa em contos... mas falta disposição!
ResponderExcluirSeu blog tem uma idéia muito legal! Vou salvar no Favoritos pra voltar e ler quando tiver tempod livres
=)