RPG Contos

domingo, 12 de maio de 2013

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 5


A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 5

"Aladark era um centro populacional de médio porte. Viajantes de vários pontos do continente passavam por ali pelos mais diferentes motivos. As praças da cidade e os pontos de comércio estavam sempre cheios. Prostitutas, nobres, mercadores, guerreiros, sacerdotes, ferreiros e servos. Todos, sem distinção, se apinhavam pelas ruas.

A eles se juntaram mortos-vivos.

Seres de carne putrefata rastejavam vagarosamente pelo chão, deixando pelo caminho parte de seus corpos. O cheiro de decomposição era um convite às moscas, e elas o atendiam aos milhões. Órbitas oculares vazias eram preenchidas pela luz vermelha da agonia e negra da morte. Um murmúrio de desespero ecoava baixo, embora audível o bastante para trazer loucura a quem o ouvia.
Chamá-los de zumbis ia se mostrando um erro, pois os cadáveres se decompunham à medida que avançavam, restando apenas ossos conspurcados por crostas negras. Pareciam esqueletos, mas eram mais que isso: uma camada de algo desconhecido revestia parte de suas carcaças.
Chegavam às centenas, afugentando milhares. Arrastavam-se penosamente, com lentidão, sem pressa de propagar pânico e horror. Multidões os viram tomar de assalto as proximidades e a maioria fugiu.

Mas nem todos.

Como em quase todo local densamente povoado, lá havia guerreiros. Feiticeiros. Sacerdotes. Cavaleiros. Espadachins. E toda a sorte de indivíduos com habilidades acima da média. Os assim chamados “aventureiros”. E eles avançaram até os “esqueletos”.

Foi então que o verdadeiro terror começou.

As crostas amarronzadas grudadas nos ossos das criaturas tornavam-se fumaça quando atacadas. Armas e magias eram usadas contra os mortos-vivos apenas para chocarem-se contra o nada. Os esqueletos tornavam-se intangíveis quando golpeados.

- É como se os corpos físicos desses monstros fossem transportados para o Plano Etéreo quando eles são atacados! – alguém arriscou, em desespero.

Lâminas rasgavam o ar sem encontrar seu alvo. Rajadas místicas cruzavam o vazio sem atingir ninguém. Chamas sagradas fortalecidas por orações passavam pelos inimigos sem lhes tocar. Os aventureiros eram dezenas, mas estavam impotentes. Não havia como ferir os adversários. Uns seguiam tentando golpear, outros gritaram ordens de evacuação. Não seria possível deter o avanço daqueles seres tão facilmente.
Aos trambolhões, sob empurrões e gritaria, as pessoas fugiam. Aladark tinha várias saídas, todas dando para cidades ao sul de Dalieh. Os diferentes trajetos até lá passavam por alguns trechos desabitados, mas não havia escolha. Ninguém ousou olhar para trás. Os que o fizeram, viram os esqueletos tornarem-se milhares. Os aventureiros foram encurralados. Que a deusa Naty tivesse piedade da alma deles.
O toque das garras daqueles seres trazia o desespero. Havia algo de espectral, de imaterial naqueles ataques. Algo que agredia corpo e alma. Algo que tirava mais do que a esperança da vitória: tirava a vontade de vencer. Os valentes defensores da cidade resistiam como podiam, mas a inferioridade numérica lhes assegurou a derrota.

Nenhum deles sobreviveu tempo suficiente para sequer entendeu quem os atacava.

***

Arsamarell ria nas sombras. Sob andrajos diferentes dos que usava quando se apresentou a Jynnen, gargalhava e contemplava o artefato que veio magicamente a suas mãos.
Niva e seu amado, os dois tolos que ele manipulara sem esforço, jaziam acorrentados em uma das muitas salas de tortura de sua masmorra. Ambos balbuciavam alguma coisa, deixando claro que se recusavam a morrer. O mago não deu importância, visto que ambos tinham cumprido seus papéis. Apodreceriam lá, e poderiam resmungar o que quisessem.

A gargalhada maligna de Arsamarell sempre soaria mais alta."

Continua... 

terça-feira, 9 de abril de 2013

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 4


A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 4 

"Anoitecia.

Jynnen fora orientado a partir até uma tumba antiga, onde supostamente repousaria o cadáver de um poderoso sacerdote de um dos deuses antigos. Lá, mais do que um corpo sem vida, haveria também um artefato com a capacidade de controlar vida e morte, corpo e alma. A barreira sobrenatural que separava o mundo dos vivos e dos mortos poderia ser cruzada. Mais que isso: poderia ser totalmente manipulada.
Para o impetuoso jovem, uma provação excelente. Confrontaria os horrores antigos que sempre circundam tumbas de sacerdote. Teria sua fé posta à prova pela quase certa presença de mortos-vivos e outros seres sobrenaturais. E após cumprir sua missão, poderia alcançar o objetivo de trazer de volta à vida o lendário Paladino Yan. Faria algo considerado impossível.

Seria, oficialmente, considerado um sacerdote de Naty, a deusa do impossível.

Niva, que tinha pouca ou nenhuma habilidade em combate, fora presenteada por Arsamarell com um poderoso anel mágico. Jynnen recebera sobre si um encantamento que aumentaria sua destreza sua e obstinação. Ele relutou em aceitar aquilo, pois queria triunfar com suas próprias forças, mas acabou aceitando frente à insistência do novo aliado.
Os dois partiram rumo à tumba. O primeiro desafio foram duas cidades em ruínas infestadas de mortos-vivos e seres bizarros. A força da fé de Jynnen não foi o bastante para sobrepujar os inimigos. E houve batalha.
Niva gritou uma palavra mágica e de seu anel surgiu uma onda de fogo que incinerou três seres que lembravam zumbis. Uma horda de esqueletos munidos de lança e escudo cercaram Jynnen. Alguns golpes puderam ser aparados, já que os mortos-vivos eram lentos em batalha, mas não foi possível se proteger de todos os ataques.
Jynnen sangrou. Venceu, não sem pagar pela vitória com seu próprio sangue. Niva não tinha sido ferida e isso para ele bastava. Zumbis, esqueletos e vultos terríveis foram derrotados. A jornada seguiu.
Ainda era noite, mas agora estavam em um descampado. Corriam, ele bem mais que ela. Um vento uivante começou a soprar, trazendo com ele seres imateriais de aspecto e gemidos fantasmagóricos. Teria havido luta se as criaturas pudessem ferir ou serem feridas. Como não podiam, nada mais que gritos de susto e calafrios que pareciam não ter fim.

Seguiram correndo.

Uma construção em ruínas. Sob os escombros, um antigo poço ladeado pelos destroços do mecanismo que outrora fazia os moradores conseguirem a água. Protegida pela grama alta, uma entrada secreta. Jynnen a encontrou, seguindo as indicações que recebera de Arsamarell.
Não havia luz, tampouco tochas, archotes ou qualquer fonte de fogo. Uma palavra mágica pronunciada por Niva bastou para que o anel mágico resolvesse aquele problema. Mesmo assim, desceram as escadas sem ter visão ampla daquele lugar. Ar abafado e impuro. O único frio era o que subia e descias pelas espinhas sem controle.
Chegaram a um grande salão. Tão antigo quanto o mais antigo dos impérios já extintos em Adalahar. Brasões de tempos imemoriais marcavam as paredes construídas na pedra bruta. Armas enferrujadas pendiam dos suportes igualmente castigados pela ação predatória do tempo. Havia um pequeno altar. Estátuas. Uma porta lateral que não pôde ser aberta nem por força, nem por magia.

E uma tumba.

Destoava do ambiente, pois a poucos metros dali havia uma prateleira corroída por cupins repleta de recipientes com as cinzas de sacerdotes cremados no passado. O cadáver que repousava naquela tumba era, sem dúvidas, especial. Jynnen aproximou-se o máximo que sua coragem permitiu.
Não conseguiu evitar gritar de susto, uma reação natural à aura sobrenatural e aterrorizadora do local. Era um cadáver “normal”. Exceto pelo fato de se manter incólume mesmo após tanto tempo, não havia nada demais. Havia apenas, a única que Jynnen precisava que houvesse. Presa à testa enrugada, uma pequena pedra azul cintilante.
Movido pela certeza de que aquele era o artefato que buscava, tirou-o cuidadosamente do cadáver. E ao fazer aquilo, deu início ao plano de Arsamarell.

Deu início à noite mais fúnebre."

Continua... 

segunda-feira, 18 de março de 2013

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 3

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 3

"Por longos minutos, faltaram palavras. Em verdade, faltou serenidade para organizar as idéias diante de presenças tão intimidadoras. As criaturas pareciam não se importar com a demora, já que tinham uma eternidade para aguardar.
Então vieram as primeiras frases, apenas mentalmente formuladas. Em seguida a coragem de se dirigir àquelas forças antinaturais da Criação. E então veio o movimento labial, quase que um balbucio, que ganhou intensidade, até que a voz trovejou.

- Sou um servo da deusa do impossível! Vim para resgatar aquele que, em outros tempos, teve a alma tomada por vocês. Refiro-me ao Paladino Yan. Devolvam a ele sua alma!
- Tu não dá ordens a nós, mortal sem valor! – a voz não era de um ser vivo, tampouco de alguém morto – Aquele a quem chama de Paladino Yan teve seu destino selado por sua própria vontade. Não cabe a você interferir nisso. E mesmo que algo pudesse ser feito, tu não serias capaz de fazer coisa alguma.
- Tenho certeza que algo deve poder ser feito! A deusa do impossível me dará todo o poder necessário!
- Cala-te, mortal patético e iludido! Tua deusa não seria tola como tu a ponto de interferir e nem mesmo ela ousaria fazê-lo. Agora retira-te!

Um clarão violento e uma sensação de ter o corpo esmagado contra uma força invisível por alguns segundos. Jynnen abriu os olhos sem nada ver e gritou. Niva o amparou e gritou também, pois estava na mesma situação. Gradualmente a visão ia voltando, mas trazendo com ela um calafrio e uma tontura que os fez desmaiar.

***

O casal recuperou a consciência. Estavam em um recinto escuro e abafado. Parecia uma cela, mas ali não eram prisioneiros. Sob eles, uma grande cama. Havia também duas mesas encimadas por taças com água na parede oposta e vários archotes que pouco ou nada iluminavam.

- Os Guardiões do Paradoxo são forças antinaturais do mundo. Não deviam ter se metido com eles.

A voz quase os fez gritar de susto. Na parede que ficava atrás deles havia um senhor de barba amarelada, cabelos abundantes e desgrenhados, baixa estatura e olhos de estranho brilho. Niva agarrou Jynnen com força. Ele fez menção de se levantar.

- Não tenham medo. Não pretendo lhes fazer mal e peço desculpas se os assustei. Quando os encontrei desmaiados próximos ao Vale achei que seria mais seguro trazê-los até aqui. Meu nome é Arsamarell. Sou um mago e vocês estão em minha casa.

Jynnen e Niva se recompuseram. Levantaram-se. Ele apertou a mão do mago e sorriu, sendo prontamente retribuído. Ambos se apresentaram a seu anfitrião e agradeceram a acolhida.

- Peço que nos indique a saída. Preciso voltar ao Vale!
- Mas isso seria suicídio. O que pretende fazer lá?
- Convencerei aqueles seres a devolverem a alma do Paladino Yan. Nem que precise usar a força.

Arsamarell riu como uma criança que se encanta com as micagens de um avô brincalhão. Seus hóspedes se entreolharam, sem entender o motivo.

- O que você diz é realmente engraçado, meu jovem.
- Por quê?
- Ninguém neste mundo tem a força necessária para desafiar os Guardiões do Paradoxo.
- Está tentando me dizer que isso é algo impossível? Pois é justamente por isso que preciso voltar lá. A deusa do impossível me dará a força necessária.
- A deusa do impossível só é uma deusa ainda porque foi sensata o bastante para não se aproximar daqueles seres. Mas você falou em “resgatar a alma do Paladino Yan”. Se esse é seu objetivo, há outras formas de se fazer isso. Formas que não envolvem os Guardiões do Paradoxo.

Os olhos de Jynnen brilharam de alegria e excitação. Niva apertou a mão dele com força, feliz pelos novos horizontes que talvez se abrissem para seu amado. Ambos se beijaram. Uma nova missão teria início.

Os olhos de Arsamarell também brilharam.

Mas por outro motivo..."

 Continua... 

domingo, 3 de março de 2013

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 2

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 2

"Era uma região de terra desnivelada, ladeada por montanhas modestas. As chuvas recentes tinham transformado alguns trechos em verdadeiros riachos de água suja. Lodo, sapos e corvos crocitando viraram presenças comuns.
A formação rochosa que servia de limite entre o reino de Arangys e o Vale era mais íngreme e desafiadora do que se podia supor, obrigando os cavalos a ficarem para trás. Não havia onde atrelá-los, nem como garantir que eles ainda estariam lá quando voltassem. Um risco necessário.
Niva comemorava o silêncio. Seu sogro não esbravejava, não tentava impor suas vontades, não discutia. Não tanto por estar mais calmo ou tolerante, mas por falta de opções. Só restava ir adiante.

- Não temam! A deusa do impossível estará conosco! – Jynnen dizia alegremente.

E aquela certeza os fazia prosseguir.

A caminhada teve início. O Vale era de chão arenoso, umedecido em alguns pontos, mas nada que comprometesse a marcha dos três. Havia pouca ou nenhuma paisagem natural que lhes chamasse atenção ou que justificasse a redução do passo, então acabaram avançando mais rápido do que imaginavam.
E, de repente, vento. Uma brisa fria, tímida, sutil. Discreta. Mas constante, incansável, mesmo em trechos onde não deveria haver passagem de ar. Nada que incomodasse, nada que atrapalhasse a jornada. Mas era algo que causou estranheza em Niva.
Nunca tinham conversado sobre o que exatamente fariam quando chegassem ao Vale. Jynnen queria encontrar e resgatar o Paladino Yan – seja lá o que isto significasse – e os demais, a princípio, queriam apenas ajudá-lo em seu intento. Sem maiores estratégias, e confiando apenas na fé cega na deusa do impossível, seguiam. Niva, no entanto, começou a pensar a respeito.
O vento intensificou-se levemente, trazendo com ele um incômodo frio. Niva chegou a reclamar do ar cada vez mais gelado e recebeu uma bronca de Calahainen. Calou-se. Encolheu os braços em frente ao corpo e tratou de suportar tudo em silêncio.
Então veio um leve mal-estar. Como se houvessem borboletas dançando em seu estômago, querendo empurrar para fora a comida digerida há poucas horas. Depois veio uma discreta tontura. Niva não quis dizer nada, mas temia que Jynnen também estivesse sentindo aquilo. Temeu lhe perguntar e seguiu em silêncio. Um pouco adiante, Calahainen continuava a caminhada em silêncio fúnebre.
Parecia estar anoitecendo. As montanhas ao redor não eram altas o bastante para bloquear a luz solar, então a escuridão só podia ser o cair da noite. Niva pensou que não estavam caminhando há tanto tempo assim, embora a noção das horas já começasse a lhe fugir. Enfim, estava escurecendo e não importava por que.
O frio se intensificou à medida que a luz se despedia dos três. A ânsia de vômito foi ficando maior. Jynnen chegou a parar por um instante para cuspir. Minutos depois, outra vez. Calahainen seguia à frente sem nada dizer. Niva tinha a visão turva. Queria parar, mas tinha medo de propor um descanso.

- Coragem, Niva! A deusa do impossível nos dará a força necessária.

E então o barulho de um corpo indo ao chão.

***

- O senhor está bem, meu pai?

Calahainen sangrava e babava ao mesmo tempo. Provavelmente já estivesse se sentindo mal, mas seu orgulho não permitira que reclamasse ou pedisse ajuda. Os músculos estavam rijos. Os lábios arroxeados, a respiração quase inexistente.

- Não morra, pai! – Jynnen gritou, ao perceber a gravidade da situação.

Mas era tarde. Sob um vento gélido como uma lápide, Calahainen partia.

Toda a tristeza, o frio e o mal-estar sumiram subitamente. Tudo deu lugar a um calafrio. Uma mescla de desespero com horror, como se o próprio demônio entrasse lentamente em seus corpos. O frio na espinha foi tamanho que quase os fez gritar, mas o som que quebrou o silêncio não foi a voz deles.
Um som espectral, espiritual, um tipo de sussurro fantasmagórico tomou de assalto o Vale. Logo veio outro, outro e mais outro. Eram vozes de estranhas entidades, incompreensíveis formas de vida que desafiavam qualquer classificação. Aquilo era tão alienígena, que Jynnen urinou-se todo.

- Somos os Guardiões do Paradoxo! E vós, quem sois?"

Continua...

domingo, 27 de janeiro de 2013

A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 1


 A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 1

"Cheiro de sal e maresia.

Havia também o som das ondas, dos navios sendo atracados, dos marujos e capitães gritando entre si, e dos assovios discretos das prostitutas nos cais oferecendo seus préstimos. E havia ainda a visão das embarcações imensas, dos imponentes marinheiros e seus músculos exagerados, e da beleza do mar, especialmente intensificada quando o sol se punha.

Mas nada daquilo importava.

Os três traziam consigo mochilas, armas discretas e olhares de quem viajava com atenção redobrada. Um mapa fora perdido, outros dois erroneamente memorizados, e lá estavam eles, mais perdidos do que sua empáfia lhes permitia admitir.

- Pedir uma informação a alguém não vai nos custar um braço.
- Só se você tiver o cuidado de perguntar apenas depois que encontrar alguém que não seja tão mal-encarado...

As cidades portuárias do reino de Arangys eram imponentes pela paisagem natural e pelo número expressivo de navios que lá chegavam, mas tinham também a modéstia pobre das demais cidades que a circundavam, além da simplicidade e falta de instrução de seu povo. Era hábito naquelas terras chamar de “estrangeiro” qualquer um que mostrasse certa carga cultural.
No entanto, qualquer idiota poderia informar que a cidade de Araporudh ficava a algumas dezenas de quilômetros ao norte. Qualquer um poderia indicar o caminho da estrada certa a ser percorrida, qualquer um poderia apontar para um local onde cavalos podiam ser comprados ou alugados. Qualquer um seria capaz de sugerir tavernas onde uma refeição razoável era servida a um custo acessível.

Qualquer um, mas apenas se alguém tomasse a iniciativa de perguntar.

- Chegamos até aqui com nossas próprias forças, sairemos daqui com nossas próprias forças.

Calahainen fora lorde, fora militar e quase fora rei. Agora, era só um guerreiro arrogante viajando em uma terra por onde era sábio manter as armas escondidas. Nada às ancas, mochila desprovida de aço, uma tímida adaga presa ao lado interno da bota esquerda. Considerava a viagem desagradável o bastante para não poder piorar, mesmo com seu mau-humor sexagenário.
Jynnen era seu filho e o responsável direto por trazê-lo para aquela “missão”. Mais jovem e ligeiramente mais improdutivo, trazia a espada curta presa à uma tímida bainha rodeada por uma capa negra. Almejava o sacerdócio e recebera como provação inicial uma missão que qualquer pessoa sem fé chamaria de “impossível”. Para ele, era perfeito, pois sua intenção era servir Naty, a deusa do impossível.
Com eles, Nivalainen, ou apenas Niva. Era a prometida de Jynnen, muito embora ela parecesse, por vezes, relegada a um segundo plano diante da devoção do rapaz por sua deusa. Mas o amor que ela sentia era mais forte. Ela tolerava aquilo sem fraquejar, além de suportar seu intragável sogro.

- Não perguntaremos nada a ninguém! – o velho insistia.
- Meu amor, como acharemos o local? – ela perguntava aos sussurros para Jynnen, com medo que o pai dele ouvisse.
- A deusa do impossível nos guiará! – e a discussão se encerrava.

Oito horas se passaram até que encontraram uma trilha que levava ao norte. Após três ou quatro dias de viagem a cavalo chegariam à formação rochosa que separava o reino de Arangys de seu destino.

O Vale das Revelações!

***

Cantado pelos bardos, nome presente em todas as tavernas em anos passados, o Paladino Yan foi por muito tempo um dos mais famosos defensores da justiça de todo o continente. Recentemente, foi seu destino trágico na batalha épica intitulada “a Grande Contenda” que o fez voltar a povoar o imaginário das pessoas.
Sim, pois ele teria, supostamente, perdido (ou sacrificado, as versões variam) sua alma como parte do esforço necessário para que a então Rainha Naty pudesse triunfar sobre o vilão que ameaçava toda Adalahar. O fato de ele não ter sido mais visto desde então confirmava que aquele foi o fim do Paladino Yan.
Tornou-se comum, então, que servos da Deusa do Impossível se organizassem para tentar localizar o paladino e, se possível, salvá-lo. Algo realmente muito próximo do impossível, visto que o local onde ele teria desaparecido era o Vale das Revelações, região habitada por forças antinaturais do universo, conhecidas como “Guardiões do Paradoxo”.

E era para lá que Jynnen e os outros rumavam."

Continua... 

sábado, 5 de janeiro de 2013

DOS DIÁRIOS DE GAALAAS IRTANYR - FINAL

Dos diários de Gaalaas Irtanyr - FINAL

"Vou ficar devendo alguns detalhes da batalha. Lembro de ter matado os três primeiros que confrontei com golpes de espada e de ter nocauteado outro com os punhos. Mas também lembro de ter levado duas estocadas que rasgaram meu ombro esquerdo. Sem equilíbrio, acabei caindo. E então passei a lutar contra a inconsciência.
Quando abri novamente os olhos, vi aqueles que há pouco me enfrentavam confrontando outros indivíduos com vestes parecidas com as minhas. Não tive certeza se eram alguns dos que conversaram comigo, mas aquilo talvez não importasse. Eu achei que falaria com eles depois, já que eles pareciam que iam vencer. Na verdade, fiquei impressionado com a habilidade de combate deles.
Tão impressionado que me esqueci de aproveitar para tomar parte na batalha ou fugir. O preço a ser pago talvez nem possa ser considerado algo ruim: um dos velhos que vestiam robes emitiu um brilho de seus olhos, e a luz chegou até meu pulso, me fazendo sentir um formigamento e uma dor lancinante. Algo que mudaria meu destino para sempre.
Quando consegui me recompor, a batalha parecia encerrada. Os sobreviventes da caravana fugiram, deixando para trás os carroções em chamas e os corpos de seus protetores. Aqueles que se vestiam iguais a mim não mais estavam lá, aparentemente nem um pouco preocupados comigo, pois era impossível que não tivessem me visto.
Demorei alguns instantes para associar uma coisa à outra. Olhei para meu pulso e não vi mais a marca. A região parou de doer. Apenas coçava um pouco de vez em quando. Na hora, deduzi que aquilo garantia que ninguém mais me vigiava. Ninguém mais sabia onde eu estava. Era possível voltar a ser livre.

Ou não.

***

Nos dias seguintes, tratei de conseguir outras roupas e procurei abrigo em um dos povoados próximos. Lavei louça, limpei calçadas e alimentei cavalos para pagar minha alimentação. Acreditem ou não, foi até divertido. O fato é que eu estava tentando dar um descanso para minha cabeça. Precisava pôr as idéias em ordem.
Para minha surpresa, nos dias seguintes não fui procurado. Ninguém suspeito passou pelo vilarejo em que eu estava, nenhum encapuzado foi visto nas redondezas fazendo perguntas. Eu parecia definitivamente livre, fosse aquilo bom ou não.

***

Aproximadamente duas semanas depois, rumei para a cidade grande mais próxima, sem sequer saber onde ela ficava ou qual seu nome, orientando-me apenas por um mapa rabiscado pelas mãos trêmulas de um velho que encontrei em uma taverna. Sempre preferi fazer as coisas assim.
Foi quando voltei a sentir um estranho formigamento em meu pulso. A marca que lá vi surgir era outra. Quem agora me vigiava eram outros.

Mas essa já é uma outra história."

Essa não continua mais...

domingo, 16 de dezembro de 2012

DOS DIÁRIOS DE GAALAAS IRTANYR - PARTE 4

Dos diários de Gaalaas Irtanyr - Parte 4

"Foram necessários mais dois dias até que eu fosse capaz de manejar adequadamente minha espada. Após o ritual, meu pulso formigava. Eu parecia não ter a firmeza nem a coordenação necessária para nada. Além disso, os músculos dos braços não tinham muita força. Tentei aproveitar o período de recuperação para descobrir mais coisas sobre o grupo do qual passei a fazer parte, mas não tive muito êxito.
Quando conversei com um dos “amigos encapuzados” sobre já me sentir capaz de cumprir minha missão, qualquer que fosse ela, ele me pediu para que aguardasse. Regressou poucas horas depois, após, imagino, ter conversado com seus pares. Trocou minha desgastada cota de malha por um dos andrajos estranhos similares ao que ele usava.
Havia algo de sobrenatural naquelas vestimentas, pois eram extremamente leves, em nada comprometiam os movimentos do corpo, mas ao mesmo tempo passavam a inexplicável sensação de serem muito protetoras. Eu me sentia invulnerável ao usar aquilo, embora não soubesse explicar por quê.
Logo chegou o momento de perguntar qual seria minha missão. Ou melhor: qual seria a primeira missão, já que pude perceber nas entrelinhas do que tinham me dito que seriam várias. Era bem provável que eu passasse a vida inteira cumprindo missões para eles.
No fundo, eu não me importava. Há muito eu escolhera viver aventurando-me sem rumo, deixando que o destino se encarregasse de escolher quem seriam meus aliados e meus inimigos. Ali, com aquele grupo, eu estava sendo bem alimentado, tinha uma cama confortável, tinha aliados e me sentia mais poderoso. O que mais eu poderia querer?
Mais algumas horas se passaram até que eu obtivesse uma resposta satisfatória. E confesso que fiquei um tanto quanto frustrado. Recebi ordens para interceptar uma caravana de viajantes que passaria por uma determinada região e não deixar ninguém vivo. Eu, honestamente, esperava algo mais desafiador.
Mas é claro que eu entendi qual era o objetivo deles. Queriam testar meus escrúpulos, minha lealdade. Talvez houvesse mulheres ou crianças na caravana. Queriam testar minha moral, meu senso de piedade. Minha obediência.

Ou, ao menos, assim eu pensava.

***

Parti, levando comigo minha espada, minha recém-adquirida armadura, dois mapas, um vidrinho com um ungüento que me disseram que poderia ser útil e um chifre com água. No caminho, uma rápida olhadela em meu pulso: a marca que só eu via estava ali, deixando claro que me vigiavam.
O local exato era um entroncamento de tímidas estradas vindas de diferentes cidadezinhas da região. Posicionado ali eu via caravanas de mercadores vindas dos mais diversos locais, carregando as mais diferentes variedades de carga. Por muito pouco não parei um comboio que vendia frutas para comprar algumas.
Eu já estava embrenhado há aproximadamente uma hora no meio da densa vegetação que ladeava uma bifurcação, quando a caravana que eu atacaria apareceu. Era pesadamente escoltada: quatro cavaleiros montados e pesadamente armadurados em cada lado. Havia três carroças ao todo. Pude precisar gente apenas nas duas primeiras.
E então, meu primeiro erro: não tinha trazido armas para ataque à distância. Não teria a meu favor o elemento surpresa. O que estava acontecendo comigo? Eu estava agindo como um patético amador. Nem Choury teria sido tão estúpido.
Enfim, decidi fazer algo um tanto quanto inédito. Algo que, ao lembrar-me enquanto escrevo nessas páginas amassadas, sinto um arrepio de arrependimento. Chega a ser constrangedor contar. Mas, enfim...
Saltei para o meio da estrada colocando-me entre minhas futuras vítimas e a seqüência da estrada. Os cavalos pararam e todos me fitaram com estranheza. Pude ver claramente os semblantes de dois velhos calvos enrolados em robes prateados no interior de uma das carroças. Um dos soldados apeou do cavalo.

- Eu desafio todos vocês oito. Tornem minha tarefa mais simples e desçam de seus animais para que possamos lutar até a morte da maneira como se deve.

Não sei se minha voz adquiriu um tom intimidador ou grave o bastante para que eu fosse levado a sério. Também não sei dizer se os guerreiros acharam que me enfrentar da forma como eu propus era mais vantajoso para eles. O fato é que os oito desceram e desembainharam espadas curtas.
Nos segundos que antecedem a “dança do aço”, notei que um dos robes que vestia um dos velhos que estava na carroça tinha um símbolo arcano relacionado a Skarn. Então, entendi. Aquela missão não era apenas para testar minha lealdade, ou ver até onde eu era capaz de obedecer.

Mas já era tarde."

Continua...