A NOITE MAIS FÚNEBRE - PARTE 5
"Aladark era um centro populacional de médio
porte. Viajantes de vários pontos do continente passavam por ali pelos mais
diferentes motivos. As praças da cidade e os pontos de comércio estavam sempre
cheios. Prostitutas, nobres, mercadores, guerreiros, sacerdotes, ferreiros e
servos. Todos, sem distinção, se apinhavam pelas ruas.
A eles se juntaram mortos-vivos.
Seres de carne putrefata rastejavam
vagarosamente pelo chão, deixando pelo caminho parte de seus corpos. O cheiro
de decomposição era um convite às moscas, e elas o atendiam aos milhões. Órbitas
oculares vazias eram preenchidas pela luz vermelha da agonia e negra da morte. Um
murmúrio de desespero ecoava baixo, embora audível o bastante para trazer
loucura a quem o ouvia.
Chamá-los de zumbis ia se mostrando um erro,
pois os cadáveres se decompunham à medida que avançavam, restando apenas ossos
conspurcados por crostas negras. Pareciam esqueletos, mas eram mais que isso:
uma camada de algo desconhecido revestia parte de suas carcaças.
Chegavam às centenas, afugentando milhares.
Arrastavam-se penosamente, com lentidão, sem pressa de propagar pânico e
horror. Multidões os viram tomar de assalto as proximidades e a maioria fugiu.
Mas nem todos.
Como em quase todo local densamente povoado, lá
havia guerreiros. Feiticeiros. Sacerdotes. Cavaleiros. Espadachins. E toda a
sorte de indivíduos com habilidades acima da média. Os assim chamados “aventureiros”.
E eles avançaram até os “esqueletos”.
Foi então que o verdadeiro terror começou.
As crostas amarronzadas grudadas nos ossos das
criaturas tornavam-se fumaça quando atacadas. Armas e magias eram usadas contra
os mortos-vivos apenas para chocarem-se contra o nada. Os esqueletos
tornavam-se intangíveis quando golpeados.
- É como se os corpos físicos desses monstros
fossem transportados para o Plano Etéreo quando eles são atacados! – alguém
arriscou, em desespero.
Lâminas rasgavam o ar sem encontrar seu alvo.
Rajadas místicas cruzavam o vazio sem atingir ninguém. Chamas sagradas
fortalecidas por orações passavam pelos inimigos sem lhes tocar. Os
aventureiros eram dezenas, mas estavam impotentes. Não havia como ferir os
adversários. Uns seguiam tentando golpear, outros gritaram ordens de evacuação.
Não seria possível deter o avanço daqueles seres tão facilmente.
Aos trambolhões, sob empurrões e gritaria, as
pessoas fugiam. Aladark tinha várias saídas, todas dando para cidades ao sul de
Dalieh. Os diferentes trajetos até lá passavam por alguns trechos desabitados,
mas não havia escolha. Ninguém ousou olhar para trás. Os que o fizeram, viram
os esqueletos tornarem-se milhares. Os aventureiros foram encurralados. Que a
deusa Naty tivesse piedade da alma deles.
O toque das garras daqueles seres trazia o
desespero. Havia algo de espectral, de imaterial naqueles ataques. Algo que
agredia corpo e alma. Algo que tirava mais do que a esperança da vitória:
tirava a vontade de vencer. Os valentes defensores da cidade resistiam como
podiam, mas a inferioridade numérica lhes assegurou a derrota.
Nenhum deles sobreviveu tempo suficiente para
sequer entendeu quem os atacava.
***
Arsamarell ria nas sombras. Sob andrajos
diferentes dos que usava quando se apresentou a Jynnen, gargalhava e
contemplava o artefato que veio magicamente a suas mãos.
Niva e seu amado, os dois tolos que ele
manipulara sem esforço, jaziam acorrentados em uma das muitas salas de tortura
de sua masmorra. Ambos balbuciavam alguma coisa, deixando claro que se
recusavam a morrer. O mago não deu importância, visto que ambos tinham cumprido
seus papéis. Apodreceriam lá, e poderiam resmungar o que quisessem.
A gargalhada maligna de Arsamarell sempre
soaria mais alta."
Continua...