Espero que apreciem e comentem.
A Revolta dos Gênios - Parte 1
"- Sempre achei que Dalieh fosse o reino mais intimamente ligado à magia. Até onde ouvi os bardos contarem, era lá que ficavam os magos mais poderosos, encastelados em suas torres, debruçados sobre seus pergaminhos e grimórios.
- E você está certa, Yana – disse o novo amigo.
Os quatro caminhavam sobre os campos encharcados que separavam a modesta Daanayrna da imponente Buurlik. Após uma cansativa viagem do reino Yanzakar até ali, nenhum deles parecia mais ter forças para reclamar. Outras tantas chuvas torrenciais os tinham atingido no percurso, que até a vontade de praguejar havia ficado para trás. Agora estavam no reino de Yrlahn e isso era tudo o que bastava.
O novo amigo, Dyrdosh, juntara-se a eles após um episódio nada pacífico em que todos tiveram que unir suas forças para derrotarem um grupo de bugbears. Dyrdosh era um mago, embora não parecesse ter a disciplina e o amor pelo estudo que seus pares costumavam demonstrar. Era mais instintivo, mais despreocupado, e gabava-se de fazer uso das energias arcanas existentes em abundância no ambiente.
Embora o julgasse mais falastrão do que o necessário, Maross apreciava o novo companheiro, principalmente por ele proporcionar à sua irmã algumas boas horas de conversa. Isso evitava que o próprio Maross tivesse que dar atenção a Yana. Ezamyr não concordava muito com as teorias malucas sobre magia que o mais recente colega apresentava, mas não se manifestava. Em verdade, achava fascinante conhecer outros pontos de vista sobre aquele assunto.
- Dalieh é o reino da magia disciplinada, dominada pelo estudo e pelo conhecimento teórico. É o lar dos alquimistas, dos grimórios extensos e empoeirados, das bibliotecas e laboratórios cheios de componentes mágicos. É um local em que uma forte cultura arcana está enraizada desde os primórdios da civilização. Lá, a magia está fortemente ligada ao estudo. É preciso se esforçar e merecer ser um mago para se tornar um. O mesmo não ocorre aqui.
A chuva dava uma trégua. O brilho no olhar de Yana era fascínio, não o reflexo de gotas de água.
- Yrlahn é o lar da magia natural, da magia canalizada e retirada do ambiente pela sensibilidade e pelo instinto. Aqui não se estuda magia, aqui se sente magia. Todo o reino tem uma ligação sobrenatural com um outro plano da existência denominado “Morada da Magia”. Há quem acredite ser um mundo habitado pelos deuses, mas o que ele realmente é, não importa. Basta-nos saber que toda Yrlahn é fortemente influenciada pela presença das forças arcanas vindas de lá. Aqui, para ser um mago, basta ter a sensibilidade necessária para captar a magia, tornar-se uno com ela e dominá-la. Sem estudos. Sem teoria.
Yana sorria, como se apaixonada. Não pelo seu interlocutor, mas por suas palavras elucidativas. Maross chegou a bocejar de “empolgação” ao ter ouvido tudo aquilo. Ezamyr pensou em contra-argumentar, porém sabia que havia um fundo de verdade nas palavras de Dyrdosh. Era perceptível que havia algo de sobrenatural no ar, no ambiente e em todos os seres vivos de Yrlahn. Até a chuva parecia ter algo de mágico em suas gotas frias.
- Não nos contou ainda o que fazia perto da fronteira com o reino de Yanzakar – era Ezamyr, disposto a interromper as explicações acadêmicas do colega – Nem o motivo de seu regresso à Yrlahn.
- Não sei se minha explicação vai parecer satisfatória, mas a verdade é que, às vezes, sou tomado pelo impulso aventureiro de sair em viagem sem nenhuma pretensão maior que enfrentar alguns desafios e depois retornar ao meu lar.
Pela primeira vez, Maross sorriu.
- Não importa qual foi seu motivo. Para mim, só importa que estou aprendendo muito com você – disse Yana, sorrindo como se não estivesse voltando a chover forte sobre sua cabeça descoberta.
- E aprenderá muito mais se seus amigos aceitarem minha oferta de passarem os próximos dias em minha casa. É uma construção modesta, mas muito aconchegante. Lá, vocês estarão próximos aos principais estabelecimentos da cidade, caso precisem comprar alguma coisa, além de estarem a poucos minutos da estrada que leva ao sul, caso queiram sair de Buurlik.
- Uma oferta que o bom-senso nos obriga a não recusar – disse Ezamyr – Mas não pense que vamos aceitá-la apenas por conveniência ou para nos aproveitarmos de sua generosidade. Nós três realmente gostamos de você e apreciamos sua companhia.
Mais duas horas de caminhada foram necessárias até que chegassem à residência de Dyrdosh. Era uma construção realmente modesta, feita apenas de madeira extraída da região. Uma janela e uma porta, abertas, davam as boas-vindas a Ezamyr e seus amigos.
- Não há nada de valor que justifique trancá-las – explicou Dyrdosh.
O interior da casa revelava que ela era pouco mais que uma choupana. Uma lareira discreta decorava a junção entre duas paredes, iluminada por uma diminuta labareda levemente azulada que não se apagava. No canto oposto, um pequeno armário, também de madeira, encontrava-se aos pés de uma cama encimada por um colchão que parecia ser de uma estranha mistura de palha e penas. Imediatamente à esquerda, uma portinhola levava à latrina, onde havia também uma tina cheia de água.
- Não estranhem o fato de meus pertences serem modestos – o anfitrião se antecipou às prováveis perguntas que seus convidados certamente se sentiriam constrangidos demais para fazer – Como disse anteriormente, a quase totalidade das atividades cotidianas eu faço usando a magia abundante no ar. Eis porque não recorro a mais objetos materiais para um maior conforto.
- Sei que posso parecer indelicado – disse Maross – mas não posso deixar de lhe perguntar: onde nós dormiremos?
Ezamyr e Yana olharam para ele com olhar de reprovação. A não existência de mais camas ou colchões e a ausência de um espaço físico suficientemente grande para que deitassem no chão havia deixado dúvidas neles também. Entretanto, dizer algo como “Estou com sono” e esperar que Dyrdosh explicasse onde dormiriam parecia mais polido.
- A magia também se encarregará disso – disse o anfitrião, tentando, com um sorriso, deixar claro que a pergunta não o tinha ofendido.
E passaram o resto da noite ouvindo histórias sobre como a energia arcana da região era a força de trabalho de toda a cidade e de parte significativa do reino. Dyrdosh lhes contou sobre o pequeno número de estradas da região, visto que os moradores usavam meios mágicos para percorrerem grandes distâncias, contou como a clarividência permitia aos agricultores prever se o clima era ou não favorável às colheitas e até explicou como parte da milícia usava poderosos feitiços para antever certos crimes e evitá-los.
Yana a tudo ouviu com admiração e olhos brilhantes. Ezamyr o fez com moderado interesse. Maross não disfarçou o sono e só ouviu a conversa até o momento em que não resistiu e adormeceu.
***
- O que aconteceu, Dyrdosh? – disse Ezamyr, o coração prestes a sair pela boca, devido ao susto.
- Não sei. Mas acho que vamos morrer!"
Continua...